O peso corporal sinaliza, de uma maneira simplista, a quantidade de energia disponível para as necessidades metabólicas dos tecidos, assim, este é estritamente regulado pelos hormônios que influenciam o status energético do corpo.

(a) A figura mostra um modelo de retroalimentação (feedback) da regulação do peso corporal em seres humanos, baseado em dados obtidos com modelos de experimentação animal. Os centros hipotalâmicos que controlam a homeostasia energética a longo prazo percebem as reservas adiposas por meio dos níveis circulantes de leptina e insulina. Os sinais de saciedade (reguladores a curto prazo ou entre as refeições) oriundos do intestino são retransmitidos através do tronco encefálico para o hipotálamo, onde são integrados aos sinais que refletem as reservas adiposas. Estes sinais integrados, então, influenciam o apetite e o gasto energético de modo a manter o peso corporal dentro de determinada faixa de pontos de ajuste.

(b) A leptina controla o apetite e o gasto energético junto ao hipotálamo, via estimulação alternativa da produção de pró-opiomelanocortina (POMC) e alfamelanocortina (alfa-MSH) e inibindo a produção de neuropeptídeo Y (NPY) e de proteína agouti-relacionada (AGRP). O alfa-MSH liga-se ao receptor de melanocortina-4 (MC4), que inibe o apetite e aumenta o gasto energético. O NPY e a AGRP estimulam o apetite e, ao mesmo tempo, diminuem o gasto energético. A secreção diminuída de leptina, como se observa na restrição calórica voluntária, resulta na intensificação da sinalização NPY/AGRP, diminuição da sinalização de MC4 e balanço energético positivo com a cessação da restrição calórica. (c) Contudo, a superalimentação leva ao aumento da massa adiposa e à secreção de leptina, diminuição da sinalização NYP/AGRP, aumento da sinalização de MC4 e balanço energético negativo, até que o peso corporal seja restaurado aos níveis basais. CCK = colecistoquinina; GLP-1 = peptídeo glucagon-símile-1; PYY = peptídeo YY.

É possível que os avanços recentes mais significativos na ciência da obesidade tenham ocorrido na área de controle neuroendócrino e GI da homeostasia energética. Tais avanços incluem a elucidação dos mecanismos que levam ao ganho de peso indesejado e dos sistemas contrarregulatórios que restauram a perda de peso após períodos de déficit de calorias. Em seu nível mais básico, o ganho de peso consiste no resultado de um equilíbrio entre obtenção de energia e gasto energético. O ganho de peso tem lugar quando o consumo de energia é maior do que o gasto energético. A perda de peso ocorre com a restrição do consumo de energia, aumento do débito energético, ou ambos.

Entretanto, este modelo simples falha em incorporar aquilo que hoje são conhecidos como sistemas homeostáticos complexos, que contrabalanceiam as perturbações energéticas voluntárias, sejam estas uma superalimentação forçada, uma restrição calórica ou o aumento da atividade.

Um modelo homeostático de regulação do peso é teoricamente idêntico a outros sistemas rigidamente regulados existentes no corpo, como os sistemas de manutenção dos níveis de glicose e da pressão arterial. Cada sistema envolve a percepção e a resposta às alterações ambientais, incluindo as alterações de estilo de vida relacionadas à atividade e à alimentação.

Exemplificando, os níveis de glicose são mantidos junto a uma faixa normal estreita, mesmo diante das amplas flutuações diárias da entrada de calorias que ocorrem durante a ingesta das refeições, no jejum de um dia para o outro e na prática de exercícios, pela ação de respostas complexas e integradas, que incluem insulina, glucagon, catecolaminas, cortisol, hormônio do crescimento e sistema nervoso central.

Assim como a glicose, o peso corporal é regulado em múltiplos níveis, com o intuito de manter uma faixa (ou conjunto) normal, por meio da interação entre os sistemas que controlam a ingesta de refeição-a-refeição (saciedade) e aqueles que controlam a massa adiposa relativa (adiposidade). A leptina, um hormônio secretado por células adiposas e de modo diretamente proporcional à massa adiposa total, é transportada através da barreira hematoencefálica e possui receptores junto aos núcleos hipotalâmicos que controlam o apetite e o gasto energético. Quando os níveis de leptina declinam diante da perda de peso decorrente da restrição calórica, ou quando os níveis de leptina aumentam com uma superalimentação, a sinalização alterada junto aos centros hipotalâmicos centrais passa a ser integrada a outros sinais de entrada (p. ex., insulina, grelina, polipeptídeo Y), para movimentar os sistemas que fazem o peso corporal voltar aos níveis basais.

Sendo assim, a maioria dos pacientes falha em sustentar uma perda de peso prolongada apenas com a restrição calórica, devido à ativação destes sistemas de contrarregulação e da ação destes na promoção de um equilíbrio energético positivo. Neste modelo homeostático de regulação do peso, a obesidade primária resulta da diminuição da sinalização de leptina para os centros centrais (resistência à leptina), com uma consequente descompensação do ganho de peso que eventualmente restabelece a homeostasia energética em um ponto de ajuste de peso corporal e a um nível sanguíneo de leptina maiores, de modo análogo à elevação dos níveis de insulina que ocorre na compensação da resistência adquirida à insulina.

Embora este modelo simplifique demais a complexa fisiologia da regulação do peso corporal, é capaz de fornecer um ponto de partida para os clínicos no processo de ensinar os pacientes sobre a patofisiologia da obesidade e a lógica do manejo médico-cirúrgico. Para obter uma redução de peso sustentada em casos de pacientes com sobrepeso e obesos, as intervenções devem prevenir a ativação dos sistemas contrarregulatórios que repõem a perda de peso via aumento da ingesta de alimentos ou diminuição do gasto energético. As futuras terapias médicas bem-sucedidas na manutenção da redução de peso, portanto, serão aquelas baseadas no conhecimento deste sistema regulatório do peso corporal, bem como dos meios de modificá-lo.

Com o envelhecimento, a perda da regulação de alguns sistemas hipotalâmico-hipofisários pode contribuir para o aumento da massa adiposa e o desenvolvimento de sarcopenia. Exemplificando, a secreção do hormônio do crescimento diminui com o avanço da idade. Estudos prospectivos envolvendo adultos de idade mais avançada submetidos à reposição do hormônio do crescimento e com níveis-alvo de fator de crescimento insulina-símile-1 (IGF-1) na faixa normal-intermediária a normal-alta demonstraram uma constituição corporal melhorada (menos tecido adiposo, mais tecido magro) e, em alguns estudos, um conteúdo de tecido adiposo central diminuído. Além disso, o declínio dos níveis de testosterona em homens, a queda dos níveis de estrogênio nas mulheres em menopausa e os níveis aumentados de cortisol em indivíduos de ambos os sexos também podem contribuir para a redução da massa muscular, a distribuição central do tecido adiposo, ou ambas.

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Matéria escrita por APHYSIO

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